Vem conhecer Direito

A todos os finalistas do ensino secundário que pensam em candidatarem-se à universidade esta semana trago-vos o segundo testemunho da rubrica “Vem Conhecer” que conta com a participação de mais uma estudante universitária no sentido de contar a sua experiência pessoal. Assim sendo, lê até ao fim para conhecer melhor o ponto de vista de uma estudante de direito!

O meu nome é Margarida e este é o meu testemunho. Encontro-me a terminar o segundo ano da licenciatura de Direito.

Existe todo um estigma associado a cursos como Direito e Medicina por parte da sociedade como o ideal e de onde vem a elite da elite e pela minha experiência, posso dizer que Direito corresponde às expetativas que temos no que diz respeito à exigência e ao número de horas semanais que passamos com a cabeça nos livros. Todavia, aviso já que em nada se compara com as séries que encontramos na Netflix, portanto, se estiverem com a ideia de que querem ir para Direito por isso, não vão encontrar o que tanto idolatram.

Direito é um curso pesado, que te obriga a ler muito, a procurar muito e que te faz puxar muito pela cabeça, não existe uma resposta totalmente certa nem existe uma resposta totalmente errada, a resposta correta costuma ser, muitas vezes, depende. Não é, na minha opinião, um curso que toda a gente faz.

É preciso muito amor à camisola para aguentar a quantidade de noitadas que são precisas para ler a bibliografia, muita paciência para ouvir durante horas professores a terem monólogos onde despejam apenas 1/10 da matéria que está no plano de estudos da cadeira, muito desespero a ler e a resolver diversos casos que apesar de serem todos iguais, não podiam ter resoluções mais diferentes, entre muitas outras coisas.

Confesso que para mim, que vim de Ciências e Tecnologias do secundário, foi uma adaptação muito complicada. Senti-me em desvantagem em comparação com outros colegas meus que vieram de Humanidades, especialmente em relação ao método de estudo. É preciso ler muito, escrever muito e claro resolver muitos casos práticos e para alguém que estava habituada a resolver derivadas foi uma diferença muito grande.

O meu percurso tem sido atribulado, especialmente com as quarentenas, torna-se complicado por vezes desligar e separar o estudo do dia a dia.

Estar um dia em frente a um computador a ter aulas e a ter de estudar, de seguida, tudo no mesmo espaço é complicado, por isso aconselho, desde logo, a separar os dois, quando for possível estudem noutro sítio que não a vossa casa porque a vossa casa vai ser o vosso escape e acreditem, saber desligar e relaxar no vosso espaço é um must.

Confesso que a universidade em que estou não foi a minha primeira opção porque eu não me tinha candidatado a Direito no concurso nacional. Estou a estudar na Universidade Lusíada de Lisboa e o processo de candidatura é relativamente fácil. O ingresso encontra-se dividido em três fases, as duas primeiras com dois concursos de entrada e a última fase apenas abre para os cursos que ainda tiverem vagas para serem preenchidas. A minha candidatura foi feita on-line, no próprio site da faculdade com um pequeno questionário e foi-me dado a escolher três cursos para me candidatar, depois, num e-mail, tive de enviar a minha ficha ENES e o comprovativo do pagamento da candidatura, que no meu ano foram 125 euros e o meu BI se não me engano.

Escolhi a Lusíada porque é uma excelente universidade, com um corpo de docentes exigentes e de renome, um ambiente mais pequeno e reservado, com instalações incríveis em comparação com muitas das faculdades e incrivelmente bem cuidadas, foi-me aconselhada por várias pessoas próximas de mim e eu recomendo.

Escolhi Direito pois foi sempre algo que me intrigava, ainda que tenha escolhido outro plano durante o secundário, Direito nunca me saia da cabeça e desassossegava-me porque eu sabia que, no fundo, era o que eu mais queria fazer e invés de ir estudar longe um curso que eu não queria assim tanto, tomei a escolha de fazer o que eu quero, ainda que seja mais caro.

Relativamente a prós e contras:

Prós:

  • É uma licenciatura com várias vertentes, com tantas áreas possíveis e imagináveis da qual se pode fazer tudo e mais alguma coisa, as saídas principais são imensas e em todas as áreas imagináveis.
  • Faz-te conhecer muita da realidade em que nos encontramos.
  • Ajuda-te a amadurecer imenso, a “crescer” muito por influência dos professores e da forma como eles se carregam e pela exigência do próprio curso em si.
  • Claramente que temos muito a ideia de que queremos ir para Direito para fazermos a diferença e para acabar com a injustiça. Realisticamente, isso nunca vai ser assim, mas, há de facto a possibilidade de fazer o bem.
  • Melhora-se imenso a capacidade de comunicar, de expor as nossas ideias porque somos avaliados oralmente.

Contras:

  • O peso da matéria, imensa doutrina e demasiada teoria.
  • O tempo que temos de dedicar semanalmente ao estudo.
  • O custo dos livros é surreal, por anos chega à casa das várias centenas, as fotocópias de resumos, casos práticos, artigos, legislação avulsa que não está nos códigos, entre outros.
  • O custo do material e sim, gasta-se imenso dinheiro em material como canetas, sublinhadores, post its e marcadores de livros para os códigos e as bibliografias, lápis, folhas e caseiros, dossiers e capas para guardar tudo.
  • Desgaste emocional.
  • A competitividade e egoísmo para serem os melhores e a toxicidade que se cria com a competitividade.

Um conselho que dou a quem quer seguir Direito é para pensarem muito bem no que querem fazer de futuro, que pesquisem os planos de estudo, que troquem ideias com pessoas da área e que tenham a certeza de que é isso que querem, porque fazer um curso como este só por fazer é um desperdício de tempo, dinheiro e de sanidade mental honestamente.

Alguns conselhos à caloirada que decidir embarcar nesta aventura:

  • Primeiramente, vocês são malucos.
  • Em segundo lugar, aconselho a praxe porque é o melhor sítio para fazerem amigos e para se integrarem porque depois os grupos ficam feitos e vais sentir ainda mais a divisão entre grupos e entre a turma. Se não te identificares com a praxe não tenhas medo de arriscar e de falar porque há muita gente que está na mesma situação que tu.
  • Terceiro, não faltem às aulas, ainda que sejam uma seca, vai a tudo porque tudo o que é dito pelos professores é fundamental, especialmente os exemplos que eles dão, no meu caso, é o que costuma sair nos testes e nos exames.
  • Quarto, não precisam de toda a bibliografia que eles sugerem, por vezes é preferível consultar alguma na biblioteca invés de desperdiçares dinheiro a comprar os livros que mais provavelmente não vais necessitar.
  • Quinto, as aulas práticas são fundamentais, é onde aprendes a resolução dos casos práticos e a mecânica por detrás de tudo.
  • Sexto, atenção à roupa que usas quando fores fazer uma oral e à tua aparência. Direito é antiquado e o formal é essencial.
  • Sétimo, cuidado com as pessoas com quem se dão, infelizmente a competitividade é demasiada e a maior parte das vezes quem se vai queimar és tu.

Direito é uma escolha arriscada que pode ser muito revigorante, mas que requer muitos sacrifícios, não baixem a cabeça e bebam o café que precisarem e digo-vos mais, o curso faz-se em recurso, se não for em 4 anos é em 5, não se preocupem com isso.

Para terminar, aproveitem o que puderem, desfrutem das atividades, das festas, das noitadas, dos convívios, de tudo, mas olhem a moderação, o equilíbrio, não vivam apenas para os estudos porque isso vai consumir-vos.

Publicado por Tânia

Licenciada em Sociologia e estudante de mestrado em Jornalismo. Apaixonada por tudo o que implique o mundo e livros.

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